I’m not to marry

Eu não sou pra casar. E disto, desde criança eu sabia. Nas festas de família, escolhia a roda dos homens – pareciam tão livres, bebiam cerveja, conversavam sobre política enquanto as mulheres cozinhavam, lavavam louça e contavam as peripécias de sua prole.

Aos dez anos só andava com meninos, mas queria brincar de saia. “De saia não”, vovó dizia. “Pra brincar com os meninos tem que usar shorts”. Contrariada, eu vestia meu shortinho e de tempos em tempos, sentada como índio no asfalto, ouvia: “Fecha essa perna, Aninha!”

Naquela época eu já sabia que havia algo errado em mim. “Essa menina vai ser lésbica”, era o comentário dos vizinhos.

Aos doze anos ouvi que se varressem seus pés, você não casaria. Peguei uma vassoura, varri o pé direito e, por segurança, varri o esquerdo também.

Se quando criança eu era ruim, na adolescência piorei. Gostava de ser amiga das meninas, mas escolhia as tatuadas, com cabelos coloridos e tênis rasgados – tudo puta.

Aprendi a fumar, a beber e a gostar de literatura beat. Aí acabou de vez. A cada dez palavras, um palavrão. Não concordava em estudar física, química e matemática. Sabia que nunca iria usar. Queria ser livre, fazer o que quisesse, falar o que quisesse, com quem eu quisesse e não ter horário pra voltar pra casa.

Ainda não conhecia Belchior, mas achava que todas as pessoas eram cinzas e normais. Nessa mesma época,  não sabia, mas num futuro razoavelmente próximo, tatuaria “No direction home”.

Rendida aos contos de fadas, um dia conheci um cara que pensava como eu. Me apaixonei. Fui pedida em casamento. Aceitei. Max, era o nome dele. Fomos felizes por dois anos. Mas não é que a felicidade é uma arma quente e de repente percebi que a estrada seria melhor se percorrida sozinha?

Lá fui eu. Casada aos 19, divorciada aos 21 – um verdadeiro escândalo na família. Max foi o melhor cara que conheci, mas uma cama dividida não servia pra mim. Eu realmente não era uma princesa. Só aos 30 entendi.

Aos 33, sigo fora da curva, me permito sentar de índio no asfalto, mesmo usando vestido. Aos 33, quase 34 percebi que a estrada é cheia de placas de avisos, limites de velocidade e sinalizações duvidosas, mas não é que isso é magnífico?

Sigo seguindo, errando, e dizendo tudo o que não devo. Pra quem eu não devo. Meu flerte é fatalmente negativo, mas agora não assino papéis e o medo acabou. Liberdade é não ter medo, diria Nina. E assim sendo, eu me sinto muito bem….

 

 

Texto por Ana Rivelles

Ilustração por Júlia Profeta

 

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